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domingo, 1 de março de 2026

AutoPercepção

 



O que se vê no outro?!?


Eu, te via assim:

Cheio de sensibilidades

Explorador dos detalhes

Eu, te via assim:

 Capaz de viver a presença

Inteligente, maduro

Eu, te via assim:

Como um corpo que ardia

Um encaixe perfeito

Eu te via assim:

Transcendente no êxtase 

No gemido do gozo

Eu te via ...

e tudo o que via nada mais foi

do que projeções do amor

que existia em mim.


O que via no outro?!?

Projeções de mim.

Vejo no outro somente

o que eu mesma sou.


Cair em si




Eu te toco

sob aquela árvore, olhando para o mar

Teu corpo parado, não me tocas

Eu pareço invadir-te

Indo além do que é permitido

Do que tu permites ...

Há um sussurro

mas não é de prazer

“Por favor, pare!”

Volto para a realidade

Caio em mim

Calmamente

 Guardo o que é teu

Recomponho-me

Olho para o mar

Poderia sentir a rejeição

Não sinto.

Sou eu, sendo eu

E tu, não quer

Olhamo-nos

E nos convidamos a ir

Levanta-te, levanto-me

Vamos

O que poderia ter sido

morre ali

E você um pouco mais

dentro de mim.

sábado, 12 de abril de 2025

Concomitância



Não quero saber

dos amores que não deram certo

nem das desilusões e desafetos

Não quero saber

de nós

nem dos nós do amor consolidado

Quero o que é vivo

E vive no presente

O agora de estar contigo

Existindo

O agora ...

que é o vazio 

cheio da nossa 

PRESENÇA


                                                                                       A arte é de Vanessa de Carvalho da Silva  

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Impermanências

 


Deixar tudo fluir, dói

Aceitar tudo tal como é, dói

Viver consciente de que tudo passa, dói

A impermanência, dói

Dói porque o que é bom a gente quer reter

Dói porque a gente quer fazer ser eterno

Dói porque a gente se apega

Dói porque a gente quer mais do mesmo

Dói porque a gente gosta do encontro sem a despedida

Dói porque o vivido não volta mais

Dói porque tudo o que é prazeroso acaba 

no próprio gozo

Dói, mas justo por causa dessa dor

 a gente vive com mais presença

Atentos à vida, à impermanência e a sua dor

A gente percebe que é porque tudo muda 

que o novo sempre vem!




sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A equação do amor

 


Sim, antes eu queria ...

Mas, já não me importo em te mandar mensagem

nem penso muito em ti

Já não me importo com teu gosto musical,

nem sinto vontade de partilhar contigo a música que gosto

Já não me importo se olha meus stories

nem se demora para dar uma resposta

Já não me importo em saber onde andas

nem com quem e onde

O que me importa é que ao estar comigo,

seja presença

que celebra o instante.

Mas, já não me importo se diminuir a frequência

 em que nos vemos desvestidos

Já não me importo se te tornares mais escasso

pela tua falta de disponibilidade e disposição

Já não me importo se não lembras de mim

nem sonha comigo

Um amor assim, tão cheio de desimportâncias,

é expandido

Mas, se te amo mais porque me importo menos

Se te quero menos (pra mim) porque te amo mais

Então, por ser assim, é um amor 

contraditório!


terça-feira, 25 de junho de 2024

...

 


Vens tu

com o encaixe perfeito

a ressignificar o amor

Se outrora

aprendi sobre

amor livre, sem posse

Agora,

ensina-me sobre

amar sem invadir

Há espaços que não me cabem!

 

Se não fosses tu

não enxergaria muitas coisas que vejo

Agora,

não me convidas para entrar

em tua vida todos os dias

Na desimportância

ensina-me sobre

amar sem depender

Há dependências que são mendicâncias afetivas!

 

Ensinas, tu, sobre mim

amplia-me...

Mas digo-te:

o amor transcende

tudo isso que aprendo

Amor

é um estado interior

que se instala pela

Presença

que vê e toca teus detalhes,

te escuta e sente

Nessa PRESENÇA

o amor  é agora!

Nele tudo mais, é menos.

 





segunda-feira, 29 de abril de 2024

Maternidade adentro

 


Escrevendo os momentos densos, dedicando tempo, fazendo o possível para que quem leia na simplicidade se sinta um pouco mais compreendida pois no dia a dia as vezes a gente precisa de um montão de forças para maternar. Esse é um caminho que se compartilha, mas, ao mesmo tempo, é único. Cada mãe vive as suas tensões, dores, delícias e desafios do maternar em uma sociedade do cansaço, do desempenho e do esgotamento.

Como mãe partilho sobre o desafio e a importância de, nos tempos de hoje, colocar o limite. Seja no maternar solo ou dentro do casamento, seja como mãe de coração ou de criação o limite é necessário. Mas, o limite que aqui me refiro não é somente aquele que é necessário colocar na educação que damos para o (s) nosso(s) filhos, mas também aquele limite que como mãe dou a mim mesma para assim viver uma maternidade saudável.

Quando se trata do limite dado a uma criança, existe no maternar um excesso de permissividade e liberdade ou um excesso de rigidez e domínio. Independentemente de onde você se encontra, saiba que colocar um limite é bastante difícil. Entretanto, o limite é necessário para que a criança cresça saudável socialmente, psicológica e emocionalmente. Ele precisa vir do adulto porque a criança ainda não sabe como colocar um limite em si mesma. Mas o que questiono é: de que lugar, ou melhor, de que estado interior está sendo colocado ou não o limite na criança?

Como mães vivemos em uma sociedade do cansaço e penso que somos as maiores vítimas dessa sociedade. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que a sociedade do cansaço é a sociedade do desempenho e, portanto, gera um esgotamento excessivo. Explico melhor: se existe uma sobrecarga materna devido ao acúmulo de funções, ou seja, pelo fato da mãe ter de cuidar da casa, dos filhos, do casamento e ainda dar conta de complementar a renda familiar, atualmente, além da sobrecarga existe a cobrança pelo alto desempenho. É preciso dar seu máximo e ser boa em todas as funções que temos.

Como mães, na sociedade do desempenho, sentimos a exigência de produzir cada vez mais e melhor, vivemos constantemente um sentimento de carência e de culpa. Isso não tanto porque o outro do lado de fora nos cobra ou nos culpa, mas sobretudo porque nós mesmas nos cobramos sempre por mais e melhor assim como nos culpamos por não dar nosso melhor. Na sociedade do desempenho a mãe torna-se aquela que cobra dela mesma, isso quer dizer, ela explora a si mesma. No mundo do trabalho, regido pela força do desempenho, a mãe sofre de uma auto exploração e uma sutil auto violência.

Na sociedade do cansaço e do desempenho, a mãe precisa, então, colocar um limite a si mesma para manter a sua sanidade física e mental. O limite serve para ela não se cobrar demais por eficiência, por perfeição, por alto desempenho. É preciso o limite para evitar o esgotamento excessivo e outros adoecimentos psicológicos. O limite é dizer não ao esgotamento, é dizer não a auto exploração, é dizer não a essa violência sutil que praticamos em relação a nós mesmas. É viver sendo mãe e sem se cobrar pela perfeição, sem sentir que está em falta, sem exigir tanto de si mesma, sem viver de modo tão acelerado.

Desconfio que é de um lugar de falta de limite, e, portanto, de excesso de exigências sobre si e de um lugar de cansaço que se colocam os limites ou não na vida dos filhos. Muitas mães por trabalharem excessivamente, por cobrarem demais de si, por estarem cansadas tornem-se permissivas. E, do mesmo lugar, outras mães, para ter controle e dar limites tornam-se mais mandantes ou autoritárias usando de proibições e recompensas. Contudo, o limite, como aquilo que dá saúde para a mãe e contorna o caminho da criança, esse limite precisa vir de um estado interior de calma e amorosidade.

No esgotamento do dia a dia é questão de saúde encontrar dentro de si um estado interior não de esgotamento e de raiva, mas de calma e amorosidade. É desse lugar que deve ser colocado o limite em relação a criança e em relação as auto cobranças. Mas, como nós mães podemos chegar até aqui? O que pode ajudar a encontrar um lugar saudável para colocar o limite necessário é praticar yoga, buscar uma terapia (por ex. constelação familiar), meditação, a medicina do cacau ou escrever. Dentro de uma sociedade de vidas aceleradas e desesperadas, isso é um tempo de qualidade que toda mãe pode dar para si.

O que ainda pode ajudar a encontrar um lugar interior não de esgotamento, estresse, cansaço, é não aceitar ser ou tornar uma mulher esgotada por almejar o alto desempenho e a perfeição como profissional, mãe, esposa, amante. Talvez seja preciso uma dose de aceitação da condição de Ser humana e outra dose de coragem para ser imperfeita! Também percebo que é preciso ter um compromisso com os bons pensamentos. Ao cultivar bons pensamentos você se conecta com as suas boas ações, reconhece os seus esforços como mãe dentro da sociedade em que vive.


Por fim, sei que a maternidade é um caminho só de ida e para andar para frente e bem é preciso antes de tudo colocar limites.   Se faz isso a partir de um espaço interior saudável, se faz isso para poder viver melhor. Sei que cada maternar é único, e, assim, é do meu singular maternar que partilho essas reflexões sobre limite, amorosidade e maternindade. Espero que quem leia, em sua singularidade materna, sinta-se e viva um pouquinho melhor!