Páginas

terça-feira, 23 de junho de 2026

ME CURAR DE MIM




Quem nunca pensou em largar tudo, fugir, ir para outro lugar, sumir do mundo, se isolar? Se você nunca pensou nisso, então esse texto não é pra você.

Já pensei muito nisso sobretudo quando vivo situações desafiadoras e/ou dolorosas, aquelas que ensinam pela dor, mas fato é que, mesmo que consiga fugir, ir longe, viajar o mundo ou até mesmo se refugiar em ashrams para encontrar cura e paz você pode ser aconselhado a votar e se acertar com pai e mãe.

Esse caso aconteceu, por exemplo, com o autor do livro “Não começou com você”. Em busca de uma cura para a sua perda de visão, Mark Wolynn viajou o mundo, refugiou em ashrams, com práticas severas de meditação. Tudo isso com a ilusão de que se afastar geograficamente de sua família. de dores emocionais e esvaziar a sua mente poderia encontrar a cura. E, então, consultando grandes mestres espirituais, esperando receber um milagre ou mantra secreto, ele recebeu um simples conselho: “vá para casa e ligue para o seu pai e sua mãe”.

 Não é incomum mestres espirituais darem esse conselho e sabe por que? Primeiro, porque usar a espiritualidade para fugir das dores emocionais não funciona. Segundo, muitas dores que carregamos vem daqui - da relação com pai e mãe e, portanto, precisam ser curadas nessa relação.

É o caso das cinco feridas emocionais que se formam na infância que se tornaram ainda mais evidentes depois da minha experiência de passar dez dias em contato direto com pai e mãe.

A raiva sempre foi algo que nunca consegui lidar muito bem: ou guardo ou explodo como um vulcão. Sinceramente, não sei o que é pior! E, nesses dez dias de convivência revivi muita raiva que escondi lá na infância. Tive a oportunidade de perguntar a minha mãe o que eu fazia com minha raiva quando eu era pequena e ela me disse que eu me fechava no quarto e, certamente, engolia, sentia culpa por ela existir em mim. Quando o sentimento represado não tinha mais espaço dentro de mim, lembro que, ele saia em forma de explosões de choro.

Nos dias de hoje ainda me retiro e, logo, vivo sozinha esse processo de raiva, mas já não preciso engolir. Hoje, gente grande que sou, aprendi, a não repetir o comportamento da criança que fui. Toda raiva que estava guardada parece que aflorou nessa relação com pai e mãe nesses dias diante do mar e, finalmente, senti que aprendi a como lidar com ela de maneira saudável.

Quem esconde muito a raiva e sente muita raiva de si tem a ferida da injustiça, que é o caso da minha mãe e, como me tornei ciente, também era o meu caso. Sim, os filhos herdam as feridas dos pais e não bastasse isso, segundo Bourbeau, a alma da criança escolhe a família em que vai nascer justamente porque vem com a missão de trabalhar a sua ferida. Ou seja, a alma que encarna com o objetivo de curar a ferida da injustiça e da traição- como é meu caso - atrairá pais que a ajudarão a lidar com essa ferida.

Quanto ao meu pai, é dele que vem meu formato de corpo, portanto, a minha ferida predominante. O formato de corpo escancara qual é a ferida que a gente mais precisa trabalhar nessa vidinha.

Do meu pai vem a ferida da traição aquela que me fez ir para o mundo sendo a controladora. A menina traída se torna uma mulher mandona e raivosa porque quem controla sempre quer que o mundo corresponda as suas expectativas e como isso, na maioria das vezes não acontece, então, expressava a raiva em gestos agressivos ou se engolia até ela explodir pra fora.

Você já viu um cão que é acuado e, de repente, reage? Então, essa imagem traduz bem como sempre me senti diante do meu pai, porque tantas vezes silenciei ou sai de cena evitando todo e qualquer conflito. Quando ele fala mesmo que assuntos banais parece que está sempre impondo a sua verdade e como um bom controlador até altera o tom de voz para fazer valer a sua opinião.

Diante dos seus achismo ou crenças colocados com força e veemência nunca me esforcei muito em discordar ou discutir. O silêncio é a resposta que mais uso mesmo em provocações, porque, como controladora que sou, não me coloco em situação de confronto em que não tenho o controle. Retiro-me por não dar conta de ter controle da discussão e, das poucas vezes que lembro de ter reagido, foi com violência - como o cachorro acuado - porque dentro de mim estava guardada muita raiva.

Explosões de raiva por meio de violência verbal, por meio do choro, por meio de corridas muito intensas, por meio de autoagressão ou descontada em coisas jogadas, quebradas ... e todo esse sentimento condenado existe em mim por causa das minhas feridas.

Hoje, entendo que isso é parte do meu jeito de ser, que se formou baseado na ferida da traição e da injustiça. Já não tento mudar isso que sou nem me condeno ou culpo, antes disso, entendo e aceito. Sim compreendo que minha ferida da traição atrai pra mim esse tipo de comportamento por parte do meu pai assim como em função da sua ferida meu pai adota esse tipo forte, agressivo e cheio de razão de ser. Isso faz com que eu, apesar de amá-lo ainda o deteste por isso.

Sou do tipo controladora e raivosa por ter sido traída na infância. E, veja bem, não tem nada de especial nisso porque umas mais ou outras menos, todas nós mulheres vivemos a traição na infância porque o sentimento de perder a confiança se vive no momento da vida em que a criança passa pelo que Freud chamou de complexo de édipo.

Sim, é exatamente aqui, no desabrochar da nossa energia sexual que não é diferente da energia de vida, que, por sua vez, é igual a energia de poder de criação - onde a menina perde a confiança em seu pai porque de um modo ou de outro ele não corresponde as suas expectativa e desejos, não cumpriu com todas as suas promessa e não nos desejou na mesma proporção. Isso sinaliza que todas nós mulheres de alguma maneira fomos traídas e, portanto, todas sentimos raiva. Se não tens a ferida da traição nem a da injustiça essa raiva existe em uma proporção menor em ti e, certamente, não terás tanta dificuldade como aquelas que eu sempre tive.  

Os dez dias de convivência com pai e mãe evidenciaram o que antes eu não via: a raiva que tanto tentei corrigir em mim e que tantas vezes me culpei por sentir é parte das feridas carrego. Ela existe em função do que aconteceu comigo na infância e do que precisei deixar de ser para pertencer a aquele ambiente em que cresci. Esses dias foram tão intensos que me fizeram ver que a questão central da minha vida sempre foi essa: Como lidar com a raiva? Como não guardá-la ou escondê-la? Como não colocá-la pra fora e ser agressiva?

Percebi que a maternidade veio pra que eu pudesse olhar ainda mais de perto para isso. Tenho uma filha que assim como eu tem como ferida a da traição. Isso é evidenciado pelo seu corpo, pela força e raiva que ela carrega ainda que ela seja uma criança cheia de amorosidade. Sempre procurei ensiná-la a lidar melhor do que eu como esse sentimento que é tão essencial para a vida, entretanto, nunca encontrei nada que funcionasse muito e, no fundo, era porque eu ainda não havia encontrado a solução em mim.

Os dez dias de convivência intima entre os meus (pai, mãe e filha) me trouxe, finalmente, a cura que um retiro de dez dias de silêncio não me deu. Precisei viver quarenta e oito anos para, enfim, dizer: Eureka!!  Encontrei a resposta que buscava: eu sei como não esconder ou explodir! A sensação que tenho é que descobri o segredo do universo!