Já pensei
muito nisso sobretudo quando vivo situações desafiadoras e/ou dolorosas, aquelas
que ensinam pela dor, mas fato é que, mesmo que consiga fugir, ir longe, viajar
o mundo ou até mesmo se refugiar em ashrams para encontrar cura e paz você pode
ser aconselhado a votar e se acertar com pai e mãe.
Esse caso
aconteceu, por exemplo, com o autor do livro “Não começou com você”. Em busca
de uma cura para a sua perda de visão, Mark Wolynn viajou o mundo, refugiou em ashrams,
com práticas severas de meditação. Tudo isso com a ilusão de que se afastar
geograficamente de sua família. de dores emocionais e esvaziar a sua mente
poderia encontrar a cura. E, então, consultando grandes mestres espirituais, esperando
receber um milagre ou mantra secreto, ele recebeu um simples conselho: “vá para
casa e ligue para o seu pai e sua mãe”.
Não é incomum mestres espirituais darem esse
conselho e sabe por que? Primeiro, porque usar a espiritualidade para fugir
das dores emocionais não funciona. Segundo, muitas dores que carregamos
vem daqui - da relação com pai e mãe e, portanto, precisam ser curadas nessa
relação.
É o caso
das cinco feridas emocionais que se formam na infância que se tornaram ainda
mais evidentes depois da minha experiência de passar dez dias em contato direto com
pai e mãe.
A raiva
sempre foi algo que nunca consegui lidar muito bem: ou guardo ou explodo como um
vulcão. Sinceramente, não sei o que é pior! E, nesses dez dias de convivência revivi
muita raiva que escondi lá na infância. Tive a oportunidade de perguntar a minha
mãe o que eu fazia com minha raiva quando eu era pequena e ela me disse que eu me fechava
no quarto e, certamente, engolia, sentia culpa por ela existir em mim. Quando o
sentimento represado não tinha mais espaço dentro de mim, lembro que, ele saia
em forma de explosões de choro.
Nos dias
de hoje ainda me retiro e, logo, vivo sozinha esse processo de raiva, mas já não
preciso engolir. Hoje, gente grande que sou, aprendi, a não repetir o comportamento
da criança que fui. Toda raiva que estava guardada parece que aflorou nessa
relação com pai e mãe nesses dias diante do mar e, finalmente, senti que
aprendi a como lidar com ela de maneira saudável.
Quem esconde
muito a raiva e sente muita raiva de si tem a ferida da injustiça, que é o caso
da minha mãe e, como me tornei ciente, também era o meu caso. Sim, os filhos
herdam as feridas dos pais e não bastasse isso, segundo Bourbeau, a alma da criança
escolhe a família em que vai nascer justamente porque vem com a missão de
trabalhar a sua ferida. Ou seja, a alma que encarna com o objetivo de curar a
ferida da injustiça e da traição- como é meu caso - atrairá pais que a ajudarão
a lidar com essa ferida.
Quanto ao
meu pai, é dele que vem meu formato de corpo, portanto, a minha ferida predominante.
O formato de corpo escancara qual é a ferida que a gente mais precisa trabalhar nessa vidinha.
Do meu pai
vem a ferida da traição aquela que me fez ir para o mundo sendo a controladora.
A menina traída se torna uma mulher mandona e raivosa porque quem controla
sempre quer que o mundo corresponda as suas expectativas e como isso, na
maioria das vezes não acontece, então, expressava a raiva em gestos agressivos
ou se engolia até ela explodir pra fora.
Você já viu
um cão que é acuado e, de repente, reage? Então, essa imagem traduz bem como sempre
me senti diante do meu pai, porque tantas vezes silenciei ou sai de cena
evitando todo e qualquer conflito. Quando ele fala mesmo que assuntos banais
parece que está sempre impondo a sua verdade e como um bom controlador até
altera o tom de voz para fazer valer a sua opinião.
Diante dos
seus achismo ou crenças colocados com força e veemência nunca me esforcei muito
em discordar ou discutir. O silêncio é a resposta que mais uso mesmo em
provocações, porque, como controladora que sou, não me coloco em situação de
confronto em que não tenho o controle. Retiro-me por não dar conta de ter
controle da discussão e, das poucas vezes que lembro de ter reagido, foi com violência
- como o cachorro acuado - porque dentro de mim estava guardada muita raiva.
Explosões de
raiva por meio de violência verbal, por meio do choro, por meio de corridas
muito intensas, por meio de autoagressão ou descontada em coisas jogadas,
quebradas ... e todo esse sentimento condenado existe em mim por causa das
minhas feridas.
Hoje, entendo
que isso é parte do meu jeito de ser, que se formou baseado na ferida da traição
e da injustiça. Já não tento mudar isso que sou nem me condeno ou culpo, antes
disso, entendo e aceito. Sim compreendo que minha ferida da traição atrai pra
mim esse tipo de comportamento por parte do meu pai assim como em função da sua
ferida meu pai adota esse tipo forte, agressivo e cheio de razão de ser. Isso faz
com que eu, apesar de amá-lo ainda o deteste por isso.
Sou do
tipo controladora e raivosa por ter sido traída na infância. E, veja bem, não
tem nada de especial nisso porque umas mais ou outras menos, todas nós mulheres
vivemos a traição na infância porque o sentimento de perder a confiança se vive
no momento da vida em que a criança passa pelo que Freud chamou de complexo de édipo.
Sim, é
exatamente aqui, no desabrochar da nossa energia sexual que não é diferente da
energia de vida, que, por sua vez, é igual a energia de poder de criação - onde a
menina perde a confiança em seu pai porque de um modo ou de outro ele não
corresponde as suas expectativa e desejos, não cumpriu com todas as suas
promessa e não nos desejou na mesma proporção. Isso sinaliza que todas nós
mulheres de alguma maneira fomos traídas e, portanto, todas sentimos raiva. Se não
tens a ferida da traição nem a da injustiça essa raiva existe em uma proporção
menor em ti e, certamente, não terás tanta dificuldade como aquelas que eu sempre
tive.
Os dez
dias de convivência com pai e mãe evidenciaram o que antes eu não via: a raiva
que tanto tentei corrigir em mim e que tantas vezes me culpei por sentir é
parte das feridas carrego. Ela existe em função do que aconteceu comigo na infância
e do que precisei deixar de ser para pertencer a aquele ambiente em que cresci.
Esses dias foram tão intensos que me fizeram ver que a questão central da minha
vida sempre foi essa: Como lidar com a raiva? Como não guardá-la ou escondê-la?
Como não colocá-la pra fora e ser agressiva?
Percebi
que a maternidade veio pra que eu pudesse olhar ainda mais de perto para isso. Tenho
uma filha que assim como eu tem como ferida a da traição. Isso é evidenciado pelo
seu corpo, pela força e raiva que ela carrega ainda que ela seja uma criança cheia
de amorosidade. Sempre procurei ensiná-la a lidar melhor do que eu como esse
sentimento que é tão essencial para a vida, entretanto, nunca encontrei nada
que funcionasse muito e, no fundo, era porque eu ainda não havia encontrado a
solução em mim.

