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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Interior



O interior que habito 
tem formas e contornos verdes
uma lagoa de água límpida e tranquila
No alvorecer tem o coletivo canto dos pássaros
o zumbido do vento 
o barulho de animais e utensílios
e dos outros: as vozes e a alegria

O interior onde estou 
É o interior que sou

Lugar onde prevalece 
a calma e a serenidade
formas harmoniosamente criadas
perturbadas pelo barulho e zumbido da mente
que silencia 

Em silêncio ouço 
assim como o canto dos pássaros
o sussurro da voz divina em mim

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A mulher que sou



Me perguntaram:
Como ocupas teu tempo?
Ah!! ... como se fora do mundo do trabalho
não houvesse nada a se fazer

Digo
Que observo o movimento dos pássaros,
A vida a germinar e florescer ...
Localizo ninhos,
Acompanho o desabrochar da flor
Cuido da terra
Planto pra cultivar o interior

Pratico o cuidado de si:
medito, estudo, exercito a criatividade
O amor desinteressado
(no trabalho voluntário).
Me reconecto com o feminino
ameaçado em seu ser
pelo mundo laboral e impessoal.

Cuido da casa, lavo, só não passo ...
Sem revolta, sem menosprezo...
Realizo a alquimia na cozinha:
descubro aromas e sabores
Sujo as mãos na terra
Só para flore(S)er

Observo os ciclos da lua,
os meus ciclos...
Percebo as estações passando pela terra,
Sinto-as passando em mim;
o movimento do morrer para renascer

Permito ser tocada pelo tambor que toco
Na roda de capoeira:
rodo, brinco, danço, jogo
Só pra dar leveza ao corpo
e alegria ao espírito

E, tudo isso que faço,
somente o faço 
por estar fora 
do lugar que tanto lutamos
para estar
e em pé de igualdade, competir:
o mundo do trabalho.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O caminho é para dentro








O divino não está no movimento
O divino não é complexo
O divino é alegria manifesta no caminho
Que recomeço, aqui e agora
É Shiva, a renovação:
Da persistência e firmeza,
Do enfrentamento de si
Da prática da abstração dos sentidos
Do exercício da presença
Do sentido que é a existência
No caminho do religare
Ao divino que me habita
Na simplicidade de ser o que sou
No cultivo do desapego
No cessar do juízo e dos desejos
Na observação dos pensamentos
Esvai-se o ego ....


Em beatitude interior
da vida simples, verdadeira, autêntica
Sigo
Ciente de ser mais do que corpo e mente
E sabendo pouco do (que) Sou
Em leveza me expando
No inspirar-expirar
Na cessação que conduz além ....
Não longe, porque é perto.
...
Com o encontro nos sentimos em casa
em qualquer lugar.

terça-feira, 31 de março de 2015

O flore(S)er na montanha





Quando subi a montanha, disposta ao trabalho voluntário, carregava a certeza de que: dar é receber. O voluntariado é uma oportunidade para exercitar essa teoria na prática. Na montanha voluntariamente ofereci a ajuda e o esforço provenientes do meu corpo, a criatividade e o conhecimento, a energia e a alegria; quando sai dela estava cheia, carregava em mim a satisfação e o entusiasmo, o conhecimento expandido, a alegria renovada e um maior autoconhecimento dado na vivência com o outro (convivência): no encontro existencial. A montanha que, mais tarde, descubro ser “a montanha do Juan”, o xamã, curador e que, ainda mais tarde, também descubro ser o médico psiquiatra, amigo de Castãneda, um sábio, contador de histórias e que fez voto de pobreza.






Na montanha do Ruan, o trabalho voluntário esteve a serviço do bem, por meio dele foi possível fazer o bem aos outros e ainda mais a si mesmo. Certamente, estar ali foi uma oportunidade para exercitar o desapego. O desapego, é verdade, pode se dar em diferentes frentes, quero dizer, pode ser em relação as coisas materiais (em geral é o mais comum), mas também pode se dar em relação a quem temos vínculos afetivos ou ainda em relação aos outros e, principalmente, em relação ao resultado da sua ação. É justamente o despego em relação ao reconhecimento pelo resultado da ação o que tive a oportunidade de exercitar e, portanto, o fazer por amor e não por interesse. Fazer o bem sem interesse, fazê-lo simplesmente, nada esperar em troca. Compreendo que ser voluntário é estar à disposição, doar o seu tempo, sua força de trabalho, entregar-se ao fazer por amor a ele e não pelo que resultará dele.


Mas ali, na montanha, não só foi possível praticar a ação desinteressada (o despego) senão também foi possível respirar suavemente, sentir e amedrontar-se com a força do vento, parar o trabalho para silenciar e olhar, demoradamente, o verde vale; andar ensimesmado pelos caminhos desenhados no chão e, não raro, ouvir uma boa música enquanto cada um desenvolve o seu trabalho (em equipe ou não) em espaços diversos. E, como se não bastasse isso, na montanha, tive a oportunidade de exercitar o meu próprio ser e, assim, descobrir ainda mais acerca do que sou e sobre aquilo que desconheço ser, isto é, aquilo que somos sem saber que somos (nossas habilidades, capacidades, talentos, dons).
É preciso entregar-se, deixar o nosso ser se manifestar, ser que, geralmente, é ocultado por condicionamentos (físicos, mentais, culturais). O encontro existencial experenciado na montanha pode te oferecer a oportunidade de ser o que você mesmo é. E o que é preciso para desocultar seu ser? Compreendo que basta se entregar e deixar as coisas acontecerem espontaneamente. Quando nos entregamos e deixamos fluir o ser que cada um é, o ser que sou e que o outro também é, floresce. Simples e espontaneamente deixe manifestar-se aquilo que em ti dorme e que no encontro, na convivência, pode acordar.
Aqui, em cima da montanha, me aproximei mais da natureza o que significa pude me aproximar mais de mim mesma, daquilo que sou. Confio na compreensão interior que diz: volte-se ao seu interior, descubra o que você é, aquilo que faz com que seja único - descobrir o próprio ser é, assim, descobrir a verdade (que sou). Quando nos colocamos nessa jornada interior da busca do que somos, quando vamos permitindo ao nosso Ser se revelar, aí, naturalmente, somos verdadeiros e, assim sendo, despertamos a atenção do outro. Há algo de elevado que começa acontecer em nós quando nos voltamos ao nosso interior, quando vamos ao encontro do nosso ser, quando somos verdadeiros: acabamos irradiando paz, leveza, alegria, luminosidade, o que passa a ser percebido na troca de olhares, mas que nem sempre é compreendido. Quando permitimos que o ser (que somos) se manifeste (por meio de nós) uma felicidade natural passa a fazer parte do nosso estar-aí.


Na convivência voluntária há o fazer, o silêncio (que pode ser traduzido como sendo uma comunhão com a natureza), a descoberta do próprio ser (do que sou), e, ainda, o conhecer. O conhecimento é compartilhado na troca (dar e receber), no ensinar e aprender, na escuta e na fala. Ouvindo, compreendo que é preciso, para se libertar da ilusão da dualidade, perceber o outro como aquilo que eu mesmo sou. Compreendo que tudo o que existe fora de nós, toda realidade, é uma construção mental ou uma projeção da mente, da consciência que sou. Ao me dispor a ouvir, prazerosamente, conheço a historicidade que existe por trás do que o outro demonstra ser, torno-me mais sensível e comedida em julgamentos. Ensinado, me encanto com os espíritos livres e criativos que cada criança é. Ensino através do fazer e diante do desejo de apreender manifesto pelas crianças: seres de doçura e leveza, verdadeiros, alegres e curiosos. Ensinar no fazer é estar à serviço da curiosidade das crianças. Ensino, com amor e paciência, mostrando como se faz, mas também ensino pelo exemplo, o que significa, ensinar no fazer ainda que sem saber que se ensina. É possível saber que ensinamos, inspiramos, pelo exemplo quando vemos o nosso fazer sendo multiplicado, recriado, ressignificado. 


Sem dúvida, a con-vivência, é capaz de educar educadores já que nos convida a ser aprendizes, a exteriorizar o que somos. Quando nos entregamos, abertos, sem escudo de defesa, mais deixamos aquilo que somos, livremente, florescer mais podemos nos sentir num estado de elevação espiritual. Quando, no encontro existencial, exercitamos o “conhece-te a ti mesmo”, mais certeza temos de que não estamos existindo em vão, mais nos aproximamos do nosso silêncio (vácuo), e, cada vez mais compreendemos sobre o nosso estar (lugar) no mundo. Em relação ao lugar, Ruan, o sábio da montanha, disse o seguinte: temos necessidade de encontrar o nosso lugar, encontrar o teu lugar é encontrar teu vácuo, o poder ser. Se você não está em seu lugar, não pode ser. Fato é que buscamos tão longe está perto: o lugar que tanto buscamos não se encontra fora, mas dentro.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Primavera: o Ser floresce em mim


   

           A descrição do que se experiência é sempre uma aproximação do que é experimentado. Ando saboreando a fragrância da Consciência que mora em mim, do Ser que me habita. Me aproximo da morada do Ser (autêntico). O caminho é longo, avanço em passos lentos, mas prazerosa e alegremente. Tudo começa no reconhecimento do presente, do agora, do ser e estar presente. Mas não basta o conhecimento do valor do agora, da atenção, é preciso mais do que isso para se sentir inteiro, completo: é necessário ter a experiência. Estar presente, ser atento, ser presença possibilita a inteireza no fazer, no sentir, no que se é (so ham). Estar no agora é estar em medit(a)ção.


          Atenção! Atenção! repete o pássaro da Ilha. Atenção é sustentar o foco sobre um objeto escolhido e não permitir a distração da mente. Para além disso, estar atento é o mesmo que ser-consciência, praticar a presentidade. Procure estar atento, presente, do teu exterior, mas também faça com que a luz da consciência (atenção) dirija-se ao seu dentro. Perceba: o que sentes? Por que sentes? Com a consciência do que se passa fora e do que se passa dentro, nos aproximamos do próprio Ser que somos, do Ser enquanto centro de força, que não é diferente das forças constitutivas do cosmos. Osho diz que, quando estamos no Ser todo e qualquer fazer se torna sagrado. Se vamos um pouco mais longe percebemos ser e fazer não representam uma dualidade senão que o Ser  está contido no fazer.
          Certamente podem questionar se a experiência de ficar atento ao presente ou ainda se o ato de manter a mente sem distrações pode ser uma ação do dia a dia. Ser presença não exige um retirar-se da vida cotidiana, ao contrário, significa adentrar nela ainda mais na medida em que nos tornamos plenamente presente em cada experiência subjetiva (do fazer e do sentir). Posso exercitar minha presentidade em pequenas situações com, por exemplo, no fazer um chá: opto pelo sabor, cuidadosamente esmago as folhas secas, escuto o seu ruído, percebo o movimento das minhas mãos, estou atento, estou presente no fazer. Não deve ser diferente quando você dança. Na dança é possível a mu(d)ança quando há uma entrega de si, o estar presente no passo, no ritmo. Anseie multiplicar o estar presente, estendê-lo a diversas e diferentes ações de modo que possa nele estar, ficar, permanecer como presença. Como disse Mooji, seja presença, a todo momento, onde quer que vá a sua atenção, traga ela de volta para o presente e, gradualmente, nossa consciência permanecerá lá (presente) sem esforço.


          Cultivo o ato de prestar atenção, especialmente realizado com base da observação da respiração e, quando saboreio, ainda que fugazmente, o estado do Ser também surgem as cores vivas que caem em cascata sobre mim causando sensações agradáveis. Torno-me sombra, vazio, protegida por luzes coloridas. Eu sou significa ser presentidade. Quando sou presença capturo o significado heideggeriano de Dasein, Ser-aí.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Na senda do yôga

Tatiana Palm



O nosso estudo e a prática de yôga começou a mais de um ano e logo de início ocorreram mudanças em nós mesmos.  O que primeiro notamos, até porque tornou-se  visível,  foram  os  benefícios  relacionados  à aparência  física:  nos  sentimos  mais  saudáveis (em boa forma física)  e  sentimos o aumento da vitalidade.  A mudança, no entanto, não ocorre somente do lado de fora: interiormente também acontece o movimento.


“Quanto mais o homem afasta-se da natureza, mais se afasta de si mesmo, da vida e do silêncio criador”. Ainda antes de enveredar nos caminhos do yôga já havíamos nos reaproximado da natureza, havíamos nos reconectado a ela. Assim, trilhando o caminho do yôga não só passamos a ter mais vitalidade senão que também reforçamos a nossa conexão com a natureza e com nós mesmos e inevitavelmente vivenciamos um desapego em relação ao material, às coisas do mundo: coisas tão pequenas, fugazes, perturbadoras.
Com a prática do yôga passamos a prestar atenção em nossa respiração, corrigindo-a; nos tornamos atentos ao ritmo do nosso corpo, acalmando-o. Assim, nos tornamos mais compreensivos, mais pacientes, mais calmos, mais presentes. Com o yôga também passamos a ter mais energia, e, por isso, tornou-se comum a situação de ser polo irradiador de energia. Por onde passamos espontaneamente não raramente vamos irradiando vibrações positivas, força, vitalidade, bem-estar, alegria que, geralmente, contagia e cativa aquele com quem nos relacionamos. Começamos a nos descobrir como sendo seres de luz (pessoa iluminada).


A alegria, que parecer ser própria da prática do yôga, nos dá a leveza necessária para voar sobre os significantes insignificantes problemas. Ela cativa, abre portas que sem ela, certamente, nos exigiria mais esforço. Além da alegria a criatividade também renasce. A criatividade artística e intelectual nos fez encantar nosso cotidiano e reencantar a prática educativa em sala de aula. Com a leveza própria da alegria e com a criatividade melhoramos em nosso ser-com os outros.
O yôga conduz ao caminho da felicidade, aquela que carregamos lá no interior, e que não depende de nada que vem de fora. Uma felicidade que quando encontrada é impossível não dividir com os outros. Isso só é possível porque o yôga faz com que, em nosso interior, aconteça a alquimia dos sentimentos, dos pensamentos, da perspectiva (do óculos que usamos) com que enxergamos o mundo.


Com a prática do yôga nos encontramos com a meditação: cultivamos o silêncio que nos dá o encontro com nos mesmos. “Meditar é voltar sobre si mesmo. É descobrir-se. É interiorizar-se. É silêncio.” Silêncio não diz respeito apenas a perturbações exteriores senão também às interiores (pensamentos). Como apaziguar e silenciar o fluxo de pensamentos alimentado continuamente pela atividade dos sentidos e pelo subconsciente? É importante não nos esquecer que é próprio da essência do ato de pensar produzir pensamentos, então, silenciar a mente não pode significar esvaziá-la de pensamentos, isso é impossível. Descobrimos que silenciar significa muito mais colocar-se como observador do fluxo mental sem por ele ser arrastado. Silenciar é transcender o fluxo dos pensamentos. É colocar-se como observador de si. Isso parecer significar estar no olho do furacão. Certamente, essa é uma prática que deve ser exercitada diariamente.


No meditar acontece o encontro com as cores. No conforto encontrado, na posição adequada, com a respiração ritmada, experenciamos a festa das cores, elas dançam em nós: azul, verde, lilás. Com o apaziguamento da mente começamos a focar com mais facilidade aquilo que desejamos e, assim, aprendemos a ter cuidado com o que desejamos, mentalizamos, projetamos mentalmente fora de nós. Compreendemos a veracidade do que se diz por aí: nós criamos a nossa realidade.
O yôga está, definitivamente, em nossa vida e, certamente, é muito mais do que uma aula praticada em um determinado tempo guiada por um instrutor. O yôga está em nosso dia a dia quando repetida e insistentemente procuramos transcender o fluxo de pensamentos, quando praticamos a concentração em um ponto, quando vamos lembrando de nos colocar em um postura confortável e de respirar adequadamente (com ritmo), quando procuramos estar presentes, ser presentidade, ser consciência permanecendo fixos em um ponto (no coração), quando nos voltamos para nós e procuramos estar entregue a nós sem nos importar com os outros. Lembramos que se importar é trazer para dentro o outro, o que, na sendo do yôga, pode ser um obstáculo para a solidão, o estar conectado ao si.


Namastê!

terça-feira, 24 de junho de 2014

Reciclar é transformar (se)


Tatiana  Palm


Em nosso dia a dia, certamente, já ouvimos falar em sustentabilidade. Na vida cotidiana é possível praticar a sustentabilidade por meio da incorporação de práticas como, por exemplo, a reciclagem. Mas, o que é reciclar?
Comumente falamos de reciclagem e logo pensamos em lixo, ou seja, reciclar é separar o lixo ou ainda dar um destino adequado ao produto que foi consumido e descartado. Por outro lado, também podemos dizer que reciclar significa colocar de volta ao ciclo produtivo o que jogamos fora, isto é, transformar o resíduo em matéria-prima para a produção de um material. Assim, a reciclagem permite diminuir a exploração dos recursos naturais e amenizar o impacto ambiental causado pela enorme quantidade de lixo que produzimos devido ao nosso consumo exagerado. Ela é uma prática que pode ser adotada por qualquer pessoa já que começa com a separação entre os resíduos seco e orgânico em nossa casa.
Reciclar, então, consiste na prática da separação e da transformação. Por causa deste último significado na linguagem corriqueira associamos a reciclagem não só aos resíduos senão que também falamos do reciclar das ideias, dos pensamentos e sentimentos, dos hábitos e atitudes, dos comportamentos. Nesse sentido, reciclar assume o significado de renovação.
 Em dias de outono as folhas caem das árvores, aproveitemos o fim desta estação para assim como as árvores nos reciclar (renovar): praticando novos hábitos de consumo, reduzindo a produção do lixo (resíduos), cultivando bons sentimentos, boas palavras, bons pensamentos, boas relações. A renovação de nós mesmos e das nossas práticas cotidianas contribui para melhorar o mundo à nossa volta.