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segunda-feira, 11 de maio de 2020

A criança fora de casa





Fora de casa, 2 meses e 20 dias, fora de órbita, fora de ordem, tanto eu quanto você. Te olho e em tão pouco tempo você cresceu tanto. Deixou do peito, deixou de comer a comida preparada pelas minhas mãos, teve uma convivência diária com outra criança, dividiu a mesma casa com prima, vó, tia, mãe, visitas ... e vive a distância de teu pai. Estes são tempos de mudança, estamos em trânsito entre uma cidade e outra, entre um estado e outro e nossa criança está fora de casa. É nesse contexto que percebo que o conhecimento nos possibilita a empatia e compreendo porque a paciência é uma grande virtude para Montessori.

Não posso me colocar no lugar do outro se não compreendo o outro. É porque compreendo as necessidades da criança, é porque sei do que ela precisa e igualmente do que lhe falta que me torno mais empática com a criança que nossa filha é. Sei que ela está no auge do período sensível da ordem e, de repente, o que lhe ofereço é a desordem. Está fora de ordem o ambiente, as coisas dele e a possibilidade que ele oferece de independência; está desordenada a sua rotina ainda que haja um esforço para fazer o mesmo ritual (sequências de ações) no início e no final do dia e, finalmente, há incoerência no meu próprio discurso porque ao estar fora de casa, no ninho familiar, ficamos mais sujeitos a agir conforme fomos educados e sugestionados a ter os mesmos comportamentos com nossos filhos. Claro que há um esforço (da minha parte) de dar uma adaptada mesmo que mínima ao ambiente, há tentativas de inseri-la em algumas atividades de rotina, mas, sobretudo, o que predomina é o fato de que você e eu estamos fora de casa.

Nesse contexto o dia a dia me convida e exige o exercício da paciência constantemente porque, na verdade, poucos foram os dias em que a minha criança ficou bem, tranquila, calma, enfim, equilibrada. O seu desequilíbrio é tão visível a ponto dela depois de poucos dias não mais dizer "estou feliz, mãe!". Ao invés de felicidade e bem estar o que mais presenciamos foram manifestações de comportamento desesperador (a birra para o vulgo) e perturbadores que assustava a mim que não estava preparada para vivenciá-los com tanta frequência e aos outros com quem convivíamos, acostumados a interromper o comportamento da criança pela ameaça ou provocando medo ou desviado o foco ou gritando. Os outros - que nada compreendem sobre a atitude de aceitar a frustração, de permitir a criança manifestar sua raiva e revolta, que não veem nessa situação de desespero a oportunidade de trabalhar a questão das emoções da criança e o nosso próprio autocontrole - jugam, rotulam, tanto a mim quanto a criança. Os outros duvidam da eficácia dessa atitude acolhedora, empática e pacífica em relação a criança que chora, grita, bate, se joga no chão e dá ordens; os outros se sentem incomodados porque a criança perturba o ambiente e o próprio adulto. Como pode uma criança não perturbar? Se isso acontecer é porque algo está equivocado. Uma criança perturba sim, com seu choro que é a expressão de que algo não está bem, com a manifestação da sua vontade, com a expressão da raiva, nervosismo e brabeza; com as "birras" repetidas que, sinceramente, foram uma grande oportunidade de trabalhar e encontrar em mim um estado de paciência, estado do qual não houve reação violenta e raivosa, mas autocontrole compassivo e amoroso.

Tudo o que perturba o adulto, o que provoca o olhar julgador do outro, tudo o que de alguma forma ele tenta evitar, quando se está fora de casa, se intensifica e acontece com mais frequência. Isso porque ao não estar em casa a criança vive não apenas em um ambiente nada favorável e de desordem, senão também sofre com a intervenção constante e desnecessária do adulto, com a falta de silêncio, com a falta do brincar solo, com a exigência de dividir, com o julgamento que rotula. Quando educamos para a autonomia a intervenção constante, o direcionamento no fazer, a ajuda vinda do outro que está do lado de fora do processo, atrapalha; é um obstáculo porque a criança não pode realizar o que ela quer e ela se irrita, grita, chora e exige mais da mãe, que em meio ao tumulto e a desordem é o porto seguro, é aquela que compreende a criança em sua necessidade e vontade. Como se já não bastasse a falta de condições para fazer por si mesma, há o adulto sinônimo da voz da experiência que comanda o tempo todo, inclusive, dá orientações nas brincadeiras e, para complementar, há a falta de silêncio devido a televisão ligada quando a sala está cheia e igualmente quando está vazia; há a exigência de carinho e quando não acontece a correspondência de afeto nem a obediência, outra vez, o julgamento.

Fora de casa, sem as condições adequadas para o seu desenvolvimento natural que visa a conquista gradativa da sua independência, a criança meiga, sensível, carinhosa, alegre, comunicativa passa a ser para o outro a chorona, a brava, aquela cheia de manias, birrenta e sem limites, desobediente. é exatamente quando estamos fora de casa - seja como no meu caso, fazendo uma mudança, seja no período de férias ou em uma viagem - que percebemos o quanto o ambiente preparado, a ordem, o silêncio são decisivos no modo de ser da criança que temos em casa.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Redemoinho




Sabe quando o vento bate em terra seca e ela levanta formando um redemoinho?! Então, é exatamente assim que me sinto, agora, em redemoinho com perspectiva da poeira baixar, assentar. Enquanto isso rodo, rodopio, espiralando para cima e para o alto. Avante!!

Neste rodopio o que conta não é o tempo do relógio nem o tempo natural, mas o tempo fora do tempo, regido pelas sincronicidades. Perceba!! Há sincronia nos acontecimentos!

Para além, reconheço que há uma criação da realidade. A realidade é criada pelo eu, no pensamento, associado com as emoções, que levam à ação. É o pensamento de um outro tempo que criou este, agora! Ahhh!! E tantos outros que agora são outrora!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Dois em um



O quanto de ti ficou em mim
Que parte de mim ficou em ti
Não se pode mensurar
Os encontros no caminho são outras faces de quem se é
Por sintonia e energia,
muitos passarão e outros ficarão
Não pela comunhão do corpo 
E sim pelo íntimo encontro do coração,  do espírito
Que acontece na música dedilhada
No tempo que flui 
Carregando e deixando um pouco do que foi
Presente
No entrecruzamento das histórias,
dos caminhos paralelos
Na impermanência que é a vida
Onde o tudo (de um noite) torna-se 
Noutro dia nada
No devir
Onde o Um pode vir a ser o Todo
E o amor expandir-se 
Não para ser mais nem menos
Apenas ser
Assim como é o amor de uma criança

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A criança interior


“Saiba todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também (...)
Saiba: todo mundo teve infância (...)
Arquimedes, Buda, Galileu
E também eu e você”


Todo mundo foi neném, criança e teve infância. E, quem já foi criança viveu a simplicidade, a verdade, a espontaneidade do ser da criança. Experenciou a leveza, a compaixão, a presença e a alegria própria da essência da criança. Quem teve infância, aos poucos, sem perceber perdeu o que é própria da criança; sem perceber deixou de ser presença, de viver no aqui e agora, deixou para trás o riso fácil, o brincar e a autenticidade do existir. E, por que? É devido a educação que deixamos de ser a criança que outrora fomos; é em função do ato educador do adulto que encobrimos o espírito da criança, o nosso ser divino que, agora, procuramos resgatar ou desocultar na busca pelo quem somos.


Nos esforçamos para desencobrir a nossa criança interior e nos tornarmos o que já fomos: autênticos, leves, verdadeiros, espontâneos, alegres, pacíficos, amorosos, equilibrados. Eis o objetivo do caminho espiritual, da jornada de autoconhecimento, do cuidado de si: despertar essa criança que mora dentro de cada um de nós. Mas, não podemos chegar até aqui sem entrar em contato com a criança ferida, reprimida, amedrontada, abandonada e podada pela educação recebida que, basicamente, se resume a uma relação de conflito entre os adulto-educador e a criança. O conflito acontece porque aquele que se esforça para educar e age convencido de estar cheio de amor, cuidado e sacrifício não é capaz de compreender a criança e, além disso, porque ele é um egocêntrico em relação à criança.


Quando, ao criar e educar nossos filhos, optamos seguir um caminho diferente daquele em que fomos educados percebemos que temos a chance de olhar para nós mesmos, para a nossa criança interior, isto é, para a criança psíquica que somos e, assim, adentramos na esfera do espiritual. Montessori afirma que “todo desenvolvimento espiritual é uma conquista da consciência que assume aquilo que ainda se encontra fora dela”. Aquilo que está fora da consciência é justamente o que mora nos porões da consciência - no subconsciente. Quando assumimos a educação de uma filho o oculto pode vir à tona, ou seja, pela criança que temos tomamos consciência da criança que fomos e somos. Assim, o ato de educar um filho, do mesmo modo que a terapia e a meditação, pode nos fazer voltar para nós mesmos e nos curar das feridas da infância. Ele pode nos conduzir a uma descoberta e, assim, a um engrandecimento de nós mesmos. Pela descoberta, engrandecimento e aperfeiçoamento avançamos no caminho espiritual, nos aproximamos do divino que há em nós.  

(Montessori, M. O segredo da infância. Campinas - SP: Kírion, 2019, p. 24)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Maternidade e Consumo



Por que consumimos tanto? Por que crianças consomem tanto? A primeira constatação é que consumimos porque somos vítimas de um sistema capitalista, das propagandas que nos seduzem o tempo todo e em quase todos os lugares. As crianças consomem porque vêem os pais sendo ávidos consumidores, consomem porque comparam-se ao outro e querem ter o que o outro tem, consomem porque são constantemente bombardeadas por propagandas que passam nas telas e pelos programas que ali assistem passiva e “concentradamente”. Para além das causas penso que bastante eficaz seria pensar a respeito de alternativas de redução do consumo.
Como podemos consumir menos? Enquanto adultos, pais e educadores podemos reduzir o consumo se nos voltarmos para nós mesmos e nos questionarmos: o que nos falta? Há uma falta em nós e é por isso que somos facilmente seduzidos pelo consumo; porque existe um falta buscamos preenchimento, satisfação, realização consumindo. Essa falta nos faz sentir um vazio que falsa e temporariamente procuramos preencher com coisas que vem de fora, isto é, por aquilo que compramos. Entretanto, o vazio que temos, na verdade, é de outra ordem, quer dizer, é um falta interior, uma falta de sentido em relação à vida e não são as coisas que compramos que nos farão sentir-se plenos e inteiramente felizes.



 Quanto à criança, o seu desejo de consumo é diretamente proporcional ao tempo de exposição às telas: programas infantis, filmes, desenhos, etc. Se reduzimos a exposição às telas, certamente, isso terá impacto naquilo que nossos pequenos querem comprar. Há um livro chamado O Fim da Evolução (Joseph Pearce) que esclarece muito bem qual é o estrago que as telas exercem em nossas crianças. Um dado assustador que li ali foi que crianças entre 4 e 7 anos representam um novo e lucrativo mercado já que se forem estimulados adequadamente, essas crianças se tornam tão materialista quanto os adultos e, além disso, com os estímulos e a programação certa (programas adequados a cada faixa etária), os hábitos de compra de uma criança são determinados para o resto de sua vida antes mesmo dela completar seus 6 anos. Portanto, ao falar em consumir menos não podemos deixar de pensar sobre o tempo em que nossos filhos ficam expostos às telas.





Enquanto mãe que segue a pedagogia montessoriana em casa, considero que para reduzir o consumo de brinquedos, acessórios, roupas infantis é preciso olhar para a criança e ver o que ela precisa, de fato, em cada momento da vida. O que lhe interessa quando ela está com dois anos? Com dois e meio, e com dois e oito meses? Com três anos? Que tipo de brincadeira ela gosta? Que tipo de atividade lhe agrada, concentra, envolve, dá alegria? Do que ela realmente precisa? É de acordo com isso que podemos consumir o brinquedo, a roupa, etc. Se observarmos nossos filhos veremos que há a idade em que gostam de encaixar coisas, há outras que gostam de pregar, há outras em que se interessam pela matemática, pelos jogos de memória, pelos quebra-cabeças, pelas bonecas, pela bicicleta, etc. A criança nos diz do que ela precisa e cabe a nós não dar mais do que ela necessita porque corremos o risco de sufocar a criança com objetos e depois ainda exigir que ela saiba brincar de outra coisa que não seja aquela brincadeira que envolve o brinquedo comprado e, não raro, eletrônico, quer dizer aquele que faz tudo por ela.



 O natal se aproxima e um componente importante nesta altura do ano é o incentivo ao consumo. Seduzem a nós gente grande e, igualmente, seduzem as nossas crianças a comprar, comprar e comprar. Como podemos reduzir o consumo, ou seja, ter uma atitude consciente nesta época festiva? Como comprar menos para crianças que, simplesmente, são vítimas do modismo de escrever a carta para o Papai Noel, carta que se resume a ser uma lista de presentes ou ainda, uma lista de desejos? Penso que podemos frear o impulso de comprar que é impulsionado pelos apelos infantis quando focalizamos em outras dimensões, isto é, quando compreendemos e ensinamos que o Natal é muito mais uma celebração do amor, da partilha, da fraternidade, da união, da família do que o dia de ganhar presentes. Isso, no entanto, não significa que nossas crianças não possam ser presenteadas. Podemos sim nos preocupar com a qualidade e não com a quantidade de brinquedos, podemos optar por dar não um brinquedo que somos induzidos a comprar, mas um bom brinquedo. Bom é aquele brinquedo que interessa a criança e que, por isso mesmo, ela vai gostar e assim, brincar por mais tempo e mais vezes. Bom brinquedo não é aquele que brinca sozinho, mas aquele que desafia a criança e que oferece a ela mais de uma possibilidade de brincadeira, é aquele que desperta nela a criatividade. Certamente, dá um pouco de trabalho procurar e encontrar brinquedos que não aparecem nas propagandas que passam pelas telas, brinquedos que a criança, realmente, gosta de brincar e não feitos somente para serem comprados. Dá trabalho, mas vale a pena!!!

domingo, 20 de outubro de 2019

AMAmentAÇÃO



Como mãe que amamenta estou a serviço da espécie (como diria Simone de Beauvoir), mas com amor isso não é uma escravidão. Servir ao outro é maior do que servir a si mesmo, é doação. Há uma fusão que naturalmente existe entre mãe e filha e que é nutrida na doação, pelo amor. Não é só o leite do peito o alimento senão também o amor que nos conecta, que nutre o corpo e o espírito, que nos une. No nosso amor há unidade e é por isso que amamentar é sentir-se um com o outro.
A ação de amamentar no sentido de servir - quando ela é livre (demanda) - nos exige estar à disposição do outro o tempo todo, de dia e de noite. A criança procura o peito quando tem fome, mas também quando precisa de atenção, de carinho, de proteção. Para além de alimentar, o peito é aconchego, é acolhimento, é remédio. Quando está frustrada ou entediada diante em uma situação a criança procura o peito. Quando se irrita, busca o peito. Quando quer colo, pede peito. Quando se machuca, o alívio vem do peito ...
Contudo, AMAmentar dói, dói no início e no fim, principalmente quando dura o tempo da nossa fusão, isto é, mais ou menos dois anos. Depois de dois anos já não temos um peito abundante, já não temos a mesma disposição e prazer em estar aí servindo o tempo todo. Ás vezes até sentimos certa irritação porque já não queremos mais ainda que a criança continue querendo, vivenciamos um conflito interno e externo. Certamente, a indisposição e o desprazer é um sinal da natureza de que já basta, já é o suficiente. É, portanto, o desmame da mãe que primeiro precisa acontecer para daí a criança de maneira natural desinteressar-se e encontrar outras fontes de prazer e compensação além do peito. Tal desmame tem a ver com um desprendimento da imagem que criamos de nós mesmas como sendo insubstituíveis e sustentadoras da vida; tem a ver com um reinventar-se como mulher, agora, sendo mãe.
Quando a fusão emocional já não mais existe, quando a mãe consegue se ver como sendo algo a mais do que somente aquela que serve à vida, daí sim, a criança naturalmente percebe a si mesma como distinta da mãe, compreende que o peito, na verdade, não é dela, mas da mãe. Compreende que não é só o peito que alimenta e sacia, que se quer colo e carinho basta pedir; compreende que um beijo cura e alivia a dor, que um abraço ameniza a frustração e a irritação; sente que o amor não se limita a união criada no peito, mas está além dele, transcende-o. E, é assim que, por aqui, acontece o desmame natural e gradativo, de modo gentil e amoroso.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A dança dos Dervixes




Dervixes é o nome dado a ordem dos dançantes ou girantes e seu fundador é Rumi, o místico poeta persa. É do encontro entre Rumi e o seu mestre, o sol de Tabriz - dizem que foi o encontro entre dois oceanos – que nasce o que conhecemos como sufismo. O sufismo é a ordem dos dançantes (girantes) porque nele se utiliza a música, o ritmo e o giro como ferramentas para encontrar o êxtase místico, em outros termos, uma experiência de unidade. Em ordem, do ritmo lento ao mais veloz, circundando um centro, gira-se e gira-se ... girando encontra-se o estado fora do tempo, a presença. E na roda que gira por horas permanece no giro quem transcende o próprio girar, o dançar rodante, o círculo que é dado nas incontáveis voltas. Para chegar aqui, para transcender o círculo é preciso entregar-se ao rodar, à dança. A entrega envolve o abrir mão do controle (que é uma ilusão). Com a perda do controle há uma aceitação do (descontrole) que acontece e a dissipação dos papéis, isto é, do ego.


Penso que o tempo, o nosso tempo, compartilha da mesma circularidade ou ciclicidade da dança dos dervixes. Desconfio que o tempo é cíclico e não linear como nos ensinaram. Pense na história: há ascensão de direita e tempos de ascensão de esquerda; há corrupção combatida que retorna num outro momento (tempo); há golpes que vão e vem e mudam o cenário histórico (tempo) que acontece. Pense na própria história, na sua história de vida ... no samsara. Outra percepção de que o tempo é cíclico pode acontecer quando olhamos para a natureza: há nela ciclos que acontecem e eles são muitos! A vida e a morte é uma bela manifestação da ciclicidade do que tem vida, da ciclicidade do tempo. O tempo cíclico também é a essência do próprio mundo sensível, do nosso mundo, do mundo dual, em outras palavras, o mundo dos opostos. Onde há dualidade, opostos: bem e mal, bom e ruim, positivo e negativo, luz e trevas, prazer e dor ... há ciclicidade. O mundo físico é dual, portanto, nem um pouco linear.


Par além do pensamento e dessas palavras podemos vivenciar o tempo cíclico em nós: a mulher em seus ciclos lunares e, portanto mensais e o masculino em seus ciclos solares e, portanto, conforme as estações anuais. Experencio em meus ciclos lunares a rotação, o movimento de vai e vem dos pensamentos, das emoções, dos comportamentos. Há tempos de introspecção e de criação. Ora é tempo de interiorização, ora é tempo de exteriorização – de expressar a si mesma numa atividade do mundo. Ora é tempo de ação noutro agora de repouso. Os ciclos em mim acontecem no âmbito físico, no mental e das sutilezas. O tempo que sou é cíclico, o tempo do mundo onde vivo é cíclico, mas, é possível a transcendência da ciclicidade? Obviamente!
 Do mesmo modo que os dervixes girantes, podemos encontrar o estado de tranquilidade da alma de Sêneca, de serenidade do mestre Eckart, de equanimidade conforme o Vipassana, enfim, o estado de presença no ir além da ciclicidade ou por meio da transcendência dos ciclos. Assim como para os dervixes para chegar até aqui, isto é, para realizar a transcendência é preciso entrega, é preciso abrir mão do controle e compreender que para além da nossa vontade, há uma vontade maior. A entrega envolve uma abertura metafísica, o que quer dizer, um reconhecimento de que há uma ordem maior, uma inteligência superior conduzido os acontecimentos da vida. Isso, no entanto, é precedido de algo mais básico, que é a percepção e a tomada de consciência dos ciclos acontecendo. Com a percepção dos ciclos inicia-se o trabalho de superação, de colocar-se além, de transcende-los no seu ciclo no corpo, na mente, no sutil. O tempo cíclico é superado pelo presente. A presença é a transcendência na imanência!