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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Não profane meu vazio

 


EU PENSEI

 Que o que existia em mim era um vazio

Quando se desfez toda a dependência

Entre o eu que sou e o outro que amo

Numa relação sem dependência

O que resta? Vazio, é obvio!

Ainda que possuída pelo vazio

 EU SENTI

Que meu vazio não era tão vazio

Nele tinha um ponto -

O fogo da atração ...

Que se tornou frio pela tua razão

Na ausência do calor, agora, nada mais aqui

Senão vazio, dentro de vazios

E tudo, aliás, não vem do vazio?

O vazio que gera outro amor

Que virá a ser – VAZIO

Amar só pode ser isso:

Um movimento para o vazio

Que cria outros amores e vazios

sábado, 15 de agosto de 2026

Corpo Emocional

 


Quase um ano no tradicional ,,,



Era dois mil e vinte e cinco e a tua gargalhada ecoou pela casa em meio ao ruído da cidade grande. No entardecer de uma tarde de primavera te escuto e, imediatamente, agradeço: Gratidão!!. O ato de agradecer positiva a vida. Nesse momento agradeço por você estar bem onde está, pela coragem de mudar, pelo movimento que você exigiu, pela cura que me gerou.

Nunca te imaginei assim, sentada, 4 horas por tarde dentro de uma sala de aula e com apenas quinze minutos de recreio. Sim, com o tempo limitado para o brincar livre que é tão, mas tão essencial à criança. Quinze minutos, mas preenchidos de companhias, de amizades, de relações humanas diversas, o suficiente para te dar muita alegria. É talvez o que  hoje você mais precisa é da socialização e não tanto do brincar livre! A alegria que ecoa aqui em casa está em ti enquanto que em mim ainda sinto dor.



Sinceramente, eu não queria ver-te ou dar-te a educação escolar que tive - a tradicional, que me formou (colocou em uma forma) e da qual me afastei. Porém, é justamente para esse tipo de escola que retorno agora contigo. É um retorno pra mim que já estive aqui como aluna e professora, mas pra você, novidade. E, não que você apenas quis, mas pediu por isso por meio sinais que foram ficando cada vez mais fortes. Eu vi os teus desequilíbrios emocionais absurdos e não podia mais negar. Eu vi as tuas gigantes frustrações num ambiente que era pra ser saudável. Era um querer meu que você estivesse dentro de uma educação mais integral, como a de uma escola Waldorf, porém, isso que eu reconhecia como bom, não fazia mais bem pra ti.

Seria mentirosa se negasse o quão profundamente frustrante foi me esforçar para dar uma educação não tradicional para minha filha e, de repente, ela sinaliza que o que quer e precisa é justamente do tradicional. Começamos com Montessori, depois educação viva e consciente, pedagogia Waldorf, para, então, chegar a sala de aula tradicional: uma educação da época das fábricas, tão ultrapassada e fracassada ... Mas não quero o novo, era isso o que ela dizia. 

Uma grande frustração gera muita raiva, afinal de contas, a educação da própria filha não está sendo como eu quero e idealizei. A raiva, sempre foi um problema pra mim, nunca consegui lidar bem com ela. A raiva não digerida se expressa no corpo. O corpo, por sua vez, fala por meio de uma dor/doença, o que a gente cala ou não consegue processar. O meu corpo, então, pela dor nos olhos me convidou a olhar para aquilo que eu não estava querendo olhar dentro de mim. sim, eu que a muito tempo não ficava doente achei que estava ficando cega porque fui invadida por uma super bactéria, sim porque não era uma simples conjuntivite.


Quando me perguntei: o que afinal de contas meu corpo queria dizer com essa dor? Foi então que depois de quinze dias comecei a melhorar. Tudo isso foi para ter essa compreensão sobre mim: no fundo, até então inconscientemente, era a minha criança interior que queria outra educação e não necessariamente minha filha. Se fiz o que fiz, se levantei a bandeira que condenava o tradicional, se pratiquei outras pedagogias foi para satisfazer uma necessidade da minha criança interior.

Era sobre mim, não sobre ela! Sempre é sobre a gente, nunca sobre o outro!

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Me CURAR de mim




Quem nunca pensou em largar tudo, fugir, ir para outro lugar, sumir do mundo, se isolar? Se você nunca pensou nisso, então esse texto não é pra você.

Já pensei muito nisso sobretudo quando vivo situações desafiadoras e/ou dolorosas, aquelas que ensinam pela dor, mas fato é que, mesmo que consiga fugir, ir longe, viajar o mundo ou até mesmo se refugiar em ashrams para encontrar cura e paz você pode ser aconselhado a votar e se acertar com pai e mãe.

Esse caso aconteceu, por exemplo, com o autor do livro “Não começou com você”. Em busca de uma cura para a sua perda de visão, Mark Wolynn viajou o mundo, refugiou em ashrams, com práticas severas de meditação. Tudo isso com a ilusão de que se afastar geograficamente de sua família. de dores emocionais e esvaziar a sua mente poderia encontrar a cura. E, então, consultando grandes mestres espirituais, esperando receber um milagre ou mantra secreto, ele recebeu um simples conselho: “vá para casa e ligue para o seu pai e sua mãe”.

 Não é incomum mestres espirituais darem esse conselho e sabe por que? Primeiro, porque usar a espiritualidade para fugir das dores emocionais não funciona. Segundo, muitas dores que carregamos vem daqui - da relação com pai e mãe e, portanto, precisam ser curadas nessa relação.

É o caso das cinco feridas emocionais que se formam na infância que se tornaram ainda mais evidentes depois da minha experiência de passar dez dias em contato direto com pai e mãe.

A raiva sempre foi algo que nunca consegui lidar muito bem: ou guardo ou explodo como um vulcão. Sinceramente, não sei o que é pior! E, nesses dez dias de convivência revivi muita raiva que escondi lá na infância. Tive a oportunidade de perguntar a minha mãe o que eu fazia com minha raiva quando eu era pequena e ela me disse que eu me fechava no quarto e, certamente, engolia, sentia culpa por ela existir em mim. Quando o sentimento represado não tinha mais espaço dentro de mim, lembro que, ele saia em forma de explosões de choro.

Nos dias de hoje ainda me retiro e, logo, vivo sozinha esse processo de raiva, mas já não preciso engolir. Hoje, gente grande que sou, aprendi, a não repetir o comportamento da criança que fui. Toda raiva que estava guardada parece que aflorou nessa relação com pai e mãe nesses dias diante do mar e, finalmente, senti que aprendi a como lidar com ela de maneira saudável.

Quem esconde muito a raiva e sente muita raiva de si tem a ferida da injustiça, que é o caso da minha mãe e, como me tornei ciente, também era o meu caso. Sim, os filhos herdam as feridas dos pais e não bastasse isso, segundo Bourbeau, a alma da criança escolhe a família em que vai nascer justamente porque vem com a missão de trabalhar a sua ferida. Ou seja, a alma que encarna com o objetivo de curar a ferida da injustiça e da traição- como é meu caso - atrairá pais que a ajudarão a lidar com essa ferida.

Quanto ao meu pai, é dele que vem meu formato de corpo, portanto, a minha ferida predominante. O formato de corpo escancara qual é a ferida que a gente mais precisa trabalhar nessa vidinha.

Do meu pai vem a ferida da traição aquela que me fez ir para o mundo sendo a controladora. A menina traída se torna uma mulher mandona e raivosa porque quem controla sempre quer que o mundo corresponda as suas expectativas e como isso, na maioria das vezes não acontece, então, expressava a raiva em gestos agressivos ou se engolia até ela explodir pra fora.

Você já viu um cão que é acuado e, de repente, reage? Então, essa imagem traduz bem como sempre me senti diante do meu pai, porque tantas vezes silenciei ou sai de cena evitando todo e qualquer conflito. Quando ele fala mesmo que assuntos banais parece que está sempre impondo a sua verdade e como um bom controlador até altera o tom de voz para fazer valer a sua opinião.

Diante dos seus achismo ou crenças colocados com força e veemência nunca me esforcei muito em discordar ou discutir. O silêncio é a resposta que mais uso mesmo em provocações, porque, como controladora que sou, não me coloco em situação de confronto em que não tenho o controle. Retiro-me por não dar conta de ter controle da discussão e, das poucas vezes que lembro de ter reagido, foi com violência - como o cachorro acuado - porque dentro de mim estava guardada muita raiva.

Explosões de raiva por meio de violência verbal, por meio do choro, por meio de corridas muito intensas, por meio de autoagressão ou descontada em coisas jogadas, quebradas ... e todo esse sentimento condenado existe em mim por causa das minhas feridas.

Hoje, entendo que isso é parte do meu jeito de ser, que se formou baseado na ferida da traição e da injustiça. Já não tento mudar isso que sou nem me condeno ou culpo, antes disso, entendo e aceito. Sim compreendo que minha ferida da traição atrai pra mim esse tipo de comportamento por parte do meu pai assim como em função da sua ferida meu pai adota esse tipo forte, agressivo e cheio de razão de ser. Isso faz com que eu, apesar de amá-lo ainda o deteste por isso.

Sou do tipo controladora e raivosa por ter sido traída na infância. E, veja bem, não tem nada de especial nisso porque umas mais ou outras menos, todas nós mulheres vivemos a traição na infância porque o sentimento de perder a confiança se vive no momento da vida em que a criança passa pelo que Freud chamou de complexo de édipo.

Sim, é exatamente aqui, no desabrochar da nossa energia sexual que não é diferente da energia de vida, que, por sua vez, é igual a energia de poder de criação - onde a menina perde a confiança em seu pai porque de um modo ou de outro ele não corresponde as suas expectativa e desejos, não cumpriu com todas as suas promessa e não nos desejou na mesma proporção. Isso sinaliza que todas nós mulheres de alguma maneira fomos traídas e, portanto, todas sentimos raiva. Se não tens a ferida da traição nem a da injustiça essa raiva existe em uma proporção menor em ti e, certamente, não terás tanta dificuldade como aquelas que eu sempre tive.  

Os dez dias de convivência com pai e mãe evidenciaram o que antes eu não via: a raiva que tanto tentei corrigir em mim e que tantas vezes me culpei por sentir é parte das feridas carrego. Ela existe em função do que aconteceu comigo na infância e do que precisei deixar de ser para pertencer a aquele ambiente em que cresci. Esses dias foram tão intensos que me fizeram ver que a questão central da minha vida sempre foi essa: Como lidar com a raiva? Como não guardá-la ou escondê-la? Como não colocá-la pra fora e ser agressiva?

Percebi que a maternidade veio pra que eu pudesse olhar ainda mais de perto para isso. Tenho uma filha que assim como eu tem como ferida a da traição. Isso é evidenciado pelo seu corpo, pela força e raiva que ela carrega ainda que ela seja uma criança cheia de amorosidade. Sempre procurei ensiná-la a lidar melhor do que eu como esse sentimento que é tão essencial para a vida, entretanto, nunca encontrei nada que funcionasse muito e, no fundo, era porque eu ainda não havia encontrado a solução em mim.

Os dez dias de convivência intima entre os meus (pai, mãe e filha) me trouxe, finalmente, a cura que um retiro de dez dias de silêncio não me deu. Precisei viver quarenta e oito anos para, enfim, dizer: Eureka!!  Encontrei a resposta que buscava: eu sei como não esconder ou explodir! A sensação que tenho é que descobri o segredo do universo! 



domingo, 1 de março de 2026

AutoPercepção

 



O que se vê no outro?!?


Eu, te via assim:

Cheio de sensibilidades

Explorador dos detalhes

Eu, te via assim:

 Capaz de viver a presença

Inteligente, maduro

Eu, te via assim:

Como um corpo que ardia

Um encaixe perfeito

Eu te via assim:

Transcendente no êxtase 

No gemido do gozo

Eu te via ...

e tudo o que via nada mais foi

do que projeções do amor

que existia em mim.


O que via no outro?!?

Projeções de mim.

Vejo no outro somente

o que eu mesma sou.


Cair em si




Eu te toco

sob aquela árvore, olhando para o mar

Teu corpo parado, não me tocas

Eu pareço invadir-te

Indo além do que é permitido

Do que tu permites ...

Há um sussurro

mas não é de prazer

“Por favor, pare!”

Volto para a realidade

Caio em mim

Calmamente

 Guardo o que é teu

Recomponho-me

Olho para o mar

Poderia sentir a rejeição

Não sinto.

Sou eu, sendo eu

E tu, não quer

Olhamo-nos

E nos convidamos a ir

Levanta-te, levanto-me

Vamos

O que poderia ter sido

morre ali

E você um pouco mais

dentro de mim.

sábado, 12 de abril de 2025

Concomitância



Não quero saber

dos amores que não deram certo

nem das desilusões e desafetos

Não quero saber

de nós

nem dos nós do amor consolidado

Quero o que é vivo

E vive no presente

O agora de estar contigo

Existindo

O agora ...

que é o vazio 

cheio da nossa 

PRESENÇA


                                                                                       A arte é de Vanessa de Carvalho da Silva  

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Impermanências

 


Deixar tudo fluir, dói

Aceitar tudo tal como é, dói

Viver consciente de que tudo passa, dói

A impermanência, dói

Dói porque o que é bom a gente quer reter

Dói porque a gente quer fazer ser eterno

Dói porque a gente se apega

Dói porque a gente quer mais do mesmo

Dói porque a gente gosta do encontro sem a despedida

Dói porque o vivido não volta mais

Dói porque tudo o que é prazeroso acaba 

no próprio gozo

Dói, mas justo por causa dessa dor

 a gente vive com mais presença

Atentos à vida, à impermanência e a sua dor

A gente percebe que é porque tudo muda 

que o novo sempre vem!




sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A equação do amor

 


Sim, antes eu queria ...

Mas, já não me importo em te mandar mensagem

nem penso muito em ti

Já não me importo com teu gosto musical,

nem sinto vontade de partilhar contigo a música que gosto

Já não me importo se olha meus stories

nem se demora para dar uma resposta

Já não me importo em saber onde andas

nem com quem e onde

O que me importa é que ao estar comigo,

seja presença

que celebra o instante.

Mas, já não me importo se diminuir a frequência

 em que nos vemos desvestidos

Já não me importo se te tornares mais escasso

pela tua falta de disponibilidade e disposição

Já não me importo se não lembras de mim

nem sonha comigo

Um amor assim, tão cheio de desimportâncias,

é expandido

Mas, se te amo mais porque me importo menos

Se te quero menos (pra mim) porque te amo mais

Então, por ser assim, é um amor 

contraditório!


terça-feira, 25 de junho de 2024

...

 


Vens tu

com o encaixe perfeito

a ressignificar o amor

Se outrora

aprendi sobre

amor livre, sem posse

Agora,

ensina-me sobre

amar sem invadir

Há espaços que não me cabem!

 

Se não fosses tu

não enxergaria muitas coisas que vejo

Agora,

não me convidas para entrar

em tua vida todos os dias

Na desimportância

ensina-me sobre

amar sem depender

Há dependências que são mendicâncias afetivas!

 

Ensinas, tu, sobre mim

amplia-me...

Mas digo-te:

o amor transcende

tudo isso que aprendo

Amor

é um estado interior

que se instala pela

Presença

que vê e toca teus detalhes,

te escuta e sente

Nessa PRESENÇA

o amor  é agora!

Nele tudo mais, é menos.

 





segunda-feira, 29 de abril de 2024

Maternidade adentro

 


Escrevendo os momentos densos, dedicando tempo, fazendo o possível para que quem leia na simplicidade se sinta um pouco mais compreendida pois no dia a dia as vezes a gente precisa de um montão de forças para maternar. Esse é um caminho que se compartilha, mas, ao mesmo tempo, é único. Cada mãe vive as suas tensões, dores, delícias e desafios do maternar em uma sociedade do cansaço, do desempenho e do esgotamento.

Como mãe partilho sobre o desafio e a importância de, nos tempos de hoje, colocar o limite. Seja no maternar solo ou dentro do casamento, seja como mãe de coração ou de criação o limite é necessário. Mas, o limite que aqui me refiro não é somente aquele que é necessário colocar na educação que damos para o (s) nosso(s) filhos, mas também aquele limite que como mãe dou a mim mesma para assim viver uma maternidade saudável.

Quando se trata do limite dado a uma criança, existe no maternar um excesso de permissividade e liberdade ou um excesso de rigidez e domínio. Independentemente de onde você se encontra, saiba que colocar um limite é bastante difícil. Entretanto, o limite é necessário para que a criança cresça saudável socialmente, psicológica e emocionalmente. Ele precisa vir do adulto porque a criança ainda não sabe como colocar um limite em si mesma. Mas o que questiono é: de que lugar, ou melhor, de que estado interior está sendo colocado ou não o limite na criança?

Como mães vivemos em uma sociedade do cansaço e penso que somos as maiores vítimas dessa sociedade. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que a sociedade do cansaço é a sociedade do desempenho e, portanto, gera um esgotamento excessivo. Explico melhor: se existe uma sobrecarga materna devido ao acúmulo de funções, ou seja, pelo fato da mãe ter de cuidar da casa, dos filhos, do casamento e ainda dar conta de complementar a renda familiar, atualmente, além da sobrecarga existe a cobrança pelo alto desempenho. É preciso dar seu máximo e ser boa em todas as funções que temos.

Como mães, na sociedade do desempenho, sentimos a exigência de produzir cada vez mais e melhor, vivemos constantemente um sentimento de carência e de culpa. Isso não tanto porque o outro do lado de fora nos cobra ou nos culpa, mas sobretudo porque nós mesmas nos cobramos sempre por mais e melhor assim como nos culpamos por não dar nosso melhor. Na sociedade do desempenho a mãe torna-se aquela que cobra dela mesma, isso quer dizer, ela explora a si mesma. No mundo do trabalho, regido pela força do desempenho, a mãe sofre de uma auto exploração e uma sutil auto violência.

Na sociedade do cansaço e do desempenho, a mãe precisa, então, colocar um limite a si mesma para manter a sua sanidade física e mental. O limite serve para ela não se cobrar demais por eficiência, por perfeição, por alto desempenho. É preciso o limite para evitar o esgotamento excessivo e outros adoecimentos psicológicos. O limite é dizer não ao esgotamento, é dizer não a auto exploração, é dizer não a essa violência sutil que praticamos em relação a nós mesmas. É viver sendo mãe e sem se cobrar pela perfeição, sem sentir que está em falta, sem exigir tanto de si mesma, sem viver de modo tão acelerado.

Desconfio que é de um lugar de falta de limite, e, portanto, de excesso de exigências sobre si e de um lugar de cansaço que se colocam os limites ou não na vida dos filhos. Muitas mães por trabalharem excessivamente, por cobrarem demais de si, por estarem cansadas tornem-se permissivas. E, do mesmo lugar, outras mães, para ter controle e dar limites tornam-se mais mandantes ou autoritárias usando de proibições e recompensas. Contudo, o limite, como aquilo que dá saúde para a mãe e contorna o caminho da criança, esse limite precisa vir de um estado interior de calma e amorosidade.

No esgotamento do dia a dia é questão de saúde encontrar dentro de si um estado interior não de esgotamento e de raiva, mas de calma e amorosidade. É desse lugar que deve ser colocado o limite em relação a criança e em relação as auto cobranças. Mas, como nós mães podemos chegar até aqui? O que pode ajudar a encontrar um lugar saudável para colocar o limite necessário é praticar yoga, buscar uma terapia (por ex. constelação familiar), meditação, a medicina do cacau ou escrever. Dentro de uma sociedade de vidas aceleradas e desesperadas, isso é um tempo de qualidade que toda mãe pode dar para si.

O que ainda pode ajudar a encontrar um lugar interior não de esgotamento, estresse, cansaço, é não aceitar ser ou tornar uma mulher esgotada por almejar o alto desempenho e a perfeição como profissional, mãe, esposa, amante. Talvez seja preciso uma dose de aceitação da condição de Ser humana e outra dose de coragem para ser imperfeita! Também percebo que é preciso ter um compromisso com os bons pensamentos. Ao cultivar bons pensamentos você se conecta com as suas boas ações, reconhece os seus esforços como mãe dentro da sociedade em que vive.


Por fim, sei que a maternidade é um caminho só de ida e para andar para frente e bem é preciso antes de tudo colocar limites.   Se faz isso a partir de um espaço interior saudável, se faz isso para poder viver melhor. Sei que cada maternar é único, e, assim, é do meu singular maternar que partilho essas reflexões sobre limite, amorosidade e maternindade. Espero que quem leia, em sua singularidade materna, sinta-se e viva um pouquinho melhor!

sexta-feira, 22 de março de 2024

OUTONAR-SE



É fechar as portas para o lado de fora!

Enquanto vivo fora de mim

aproveito para expandir com

a imensidão azul do céu e do mar

e para deixar outras coisas à mostra ...


Quando entro para dentro

vou em direção a mim, contraio-me.

Aproveito para olhar para as emoções, 

para aquilo que é preciso deixar ir

com a leveza das folhas que caem.

É tempo de decidir o que pode ficar.


Outonar-se é sobre isso:

 ir da expansão do verão para o ritmo de contração.

É deixar uma parte de si do lado de fora 

e outra metade do lado de dentro. 

É ir de fora para dentro!




quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Amor Líquido ou Sólido? (Reflexões filosóficas sobre o amor)

    Zygmunt Bauman, um dos grandes sociólogo do nosso tempo, descreve sobre a flexibilidade e a fragilidade das relações afetivas em um livro chamado Amor Líquido. Aqui ele caracteriza o que é o amor líquido vivido nos tempos de hoje, sinaliza o que impede e o que constrói um amor sólido. Entretanto, para compreender sobre o amor não basta ler Bauman, porque, na verdade, não posso aprender o amor, é preciso a experiência. 




       Pouco se fala sobre o amor líquido, mas se vive. Fala-se muito mais em amor livre, diz-se até que amor livre é um pleonasmo já que se tratando de amor, por si só, ele já é livre. Sim é livre enquanto aquilo que sinto e dou ao outro, mas quando se trata de uma relação de amor entre parceiros sexuais a liberdade pode ser libertinagem e uma das faces do amor líquido. Neste caso, o amor pode ser tão livre que não apenas lhe falta limites, prefiro dizer, contornos mas também dispensa a responsabilidade afetiva. Sinto que, dar um contorno ao amor que doo ao outro de forma livre e espontânea, gera segurança. A questão é: quem põe o limite? Se vier de fora, do outro que é o parceiro da relação amorosa, pode parecer ou e até ser uma forma de controle. O limite, então, precisa vir de dentro. Eu, o sujeito que dá o amor, é quem dá o limite. Ele sabe e diz até onde o outro pode ir. Isso tem a ver com os seus valores e com o quanto aprecia de si mesmo, o quanto está disposto a se ferir ou até aceitar um certa violência sutil, em nome do amor livre. Os limites na relação amorosa são, na verdade, vitais porque permitem ao outro saber quem você é. Em última instância, colocar limites é um ato de amor a si mesmo. 
        Quando existem os contornos na relação amorosa entre parceiros sexuais há segurança. A segurança, por sua vez, é a base do amor sólido, que pode acontecer tanto numa relação monogâmica quanto numa relação não monogâmica ou aberta. Sem segurança existe pouca entrega. Entregar-se ao outro nos torna vulneráveis e só se faz isso quando a gente se sente seguro. É a segurança no relacionamento amoroso entre parceiros sexuais que garante a qualidade da entrega. Se a segurança é a sustentação do amor sólido, a insegurança, por sua vez, é o que fundamenta o amor líquido. 
        O amor quando é líquido evita os contornos da liberdade. Não há necessidade de explicar ou justificar nada. Por não ser necessário dar muitas explicações sobre os comportamentos, quereres e sentires, cria-se silêncios. O amor líquido é cheio de pequenos silêncios, que dizem tudo e ao mesmo tempo nada. Por esse motivo, no amor líquido há um fracasso na comunicação. É possível se relacionar com quem a gente não conversa? Ou conversa muito pouco, mais para contar sobre coisas alheias e quando se trata de si, da relação, silêncio... Enganosamente, pode-se considerar o silêncio uma maneira madura de lidar com a situação, mas silenciar te permite fugir de muita coisa, te faz criar e alimentar versões próprias sobre os fatos. Cria-se assim insegurança, angústia, ansiedade, solidão. Nesses termos, quando o amor termina nem é preciso uma conversa final tampouco dar explicações, basta deixar de seguir nas redes sociais e bloquear o número no celular. 
        A insegurança gerada pelo amor é como areia movediça, nela não se consegue construir nada. Aqui se tem tudo e, ao mesmo tempo, nada. Na insegurança, o amor é fluido. Em função disso, não se sabe se está ou não com quem partilho a cama, nada se sabe sobre estar ainda juntos amanhã. No amor cuja base é a insegurança não se alimenta a esperança de querer dar certo, antes o contrário, alimenta-se o pensamento que a qualquer momento o amor da relação com o parceiro pode acabar. Nesse tipo de relação líquida, por um lado, me desmotivo por não saber se estou ou não com o outro e, por outro lado, com o fato de ter de constantemente agradar o outro para que ele continue querendo estar comigo. É uma preocupação do amor líquido querer agradar constantemente o outro que, em tempos virtuais, gosta da novidade. 
        Tal como na tela, na vida real também passa-se a amar tão somente a novidade. Quando se é movido pelo anseio do novo sem hesitar troca-se qualidade por quantidade, ainda que, assim, não se preencha o vazio ou o deserto existencial que vive dentro. Bauman sinaliza que no amor que quer novidade a todo momento o desejo vai perdendo espaço pelo impulso. Pelo impulso do querer, salto com facilidade e rapidez de afeto em afeto, aumento a rede de contatos, aumento a velocidade, acelero e a relação amorosa sexual se torna rasa. O amor líquido, por ser permeado de impulso, facilidade e aceleração é inseguro. E, quem convive com a insegura sempre espera pelo fim. 
        Quando a mentalidade de que a relação amorosa pode acabar a qualquer momento se sobrepõe, quase desparece a esperança de querer fazer dar certo. Afinal, se amanhã com facilidade e sem muitas razões tudo pode acabar não há porque esperar, fazer qualquer investimento ou sacrificar a própria vontade diante do outro, o parceiro amoroso sexual. Na relação líquida o “eu quero” e o “eu posso” torna-se uma necessidade. Pensa-se: tenho direito de viver as minhas experiências doa a quem doer. E o outro que divide a cama comigo precisa entender e aceitar isso. Não raro, um relacionamento desse tipo está fundado e uma furiosa individuação. 
        A máxima individuação funciona assim: apareceu a oportunidade, por que não aproveitar? Sento impulso, porque não me experenciar. Sim a escolha que faço pode machucar o outro mas o que importa sou eu, importa o que eu quero nesse momento, importa o que acho que é importante pra mim viver e doa a quem doer. É visível, no amor líquido há um egoísmo extremo, uma furiosa individuação. Não existe neste tipo de amor o sacrifício entendido como sendo o abrir mão de algo por amor ao outro ou para evitar causar danos ao outro. É egoísta porque não há a preocupação de abrir mão de si, do seu querer, da experiência que se tem a possibilidade de vivenciar. Na relação amorosa líquida cada um é um e livre para viver as experiências que quer viver sem olhar outrem e além. 




        Contudo, assim como Rupi Kaur nos mostra que há “outros jeitos de usar a boca”, e, do mesmo modo, há outros jeitos de amar. Não é porque vivemos na modernidade líquida que a relação afetiva amorosa precisa ser líquida. Uma relação amorosa sexual não precisa ser líquida porque pode ser sólida. E, quando se trata de amor sólido, Bauman nos diz o seguinte: esse amor se constrói com tempo, investimento, sacrifício (esforço) e comunicação. Para evitar mal entendidos aqui, é preciso deixar claro que investimento, não implica em um sustentar o outro. Está relacionado com tempo de qualidade e apreciação da vida juntos e isso envolve a energia do dinheiro. Do mesmo modo sacrifício não tem aqui a conotação religiosa, isto é, não deve ser entendido dentro de uma perspectiva da religião católica e sim no seu sentido originário. Sacrificium, do latim, que significa renuncia voluntária (a algo, alguém importante ou a si próprio). Isso tem o sentido de ofício sagrado, ou seja, é uma ação sagrada o esforço de abrir mão de si, da sua vontade. Parece-me que esse ato sagrado é o que garante uma relação seja amorosa ou não. Se não há um abrir mão de si em toda e qualquer relação não existe apenas um conjunto de eus desconectados?
          Para finalizar quero ampliar ainda mais a compreensão moderna do amor com a constatação de que o amor sólido não exige um relacionamento monogâmico. Pode ser construído também em um relacionamento não monogâmico, desde que lhe seja dada a base para crescer que é a segurança. O mais difícil, contudo, é compreender que para se ter um amor sólido é preciso criar segurança mas sem garantia, é preciso sacrificar vontades mas sem garantia, é preciso a esperança do querer fazer dar certo, mas sem garantias. E a vida, afinal, no fundo também é isso: viver sem garantia!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

(A)deus

 


                                                                                                       

Foi no dia que te disse adeus que me senti menos deusa.

...

Foi quando ficou a flor da pele a dualidade que sou:

alegria e choro, dor e êxtase.

Foi no dia que fiquei nua diante de ti

como nunca tinhas me visto!

Despida de mim 

percebi a necessidade de sentir-se especial, aqui

Vi meu ego

Foi quando imersa em mim na superfície rasa,

com gozo e choro na mesma intensidade

manifestando-se como força das entranhas

Assim: no gemido junto com o choro,

nas profundezas e na delicadezas do que sou, aqui

Vi meu ego

Foi na relação com a dor

que acessei o que nunca havia olhado:

a superioridade

 que existia pela crença de ser melhor, aqui

Vi meu ego

Foi no momento de um discurso profano

que percebi a proporção do sofrimento

causado pelo silêncio que te escondeu

e pelo meu silêncio que não quis saber, aqui

Vi meu ego

Foi quando disse adeus que

do sentir expansivo percebi

 que meu pensamento estreito e torto convenceu-me 

de que eu tinha algo para lhe ensinar, aqui


Vi meu ego

...

No adeus reconheço a pequenez que sou

e a grandeza que é o amor!


domingo, 27 de março de 2022

A descoberta de si mesma através da maternidade

 



Existem diferentes maneiras de se viver a maternidade. Para muitas mulheres a maternidade pode se tornar um peso, para outras ser benção, para outras desafiadora e gratificante ... eu vivo ela como um caminho de autodescoberta.

Quando nasce uma criança também nasce uma mãe e com isso a oportunidade dela conhecer e descobrir a si mesma. Para isso acontecer é preciso que a mãe olhe para si, preste atenção em si, perceba o que está se passando nela enquanto se relaciona com a criança.

O puerpério, esse período delicado e sensível vivido pela mãe, pode ser, por exemplo, um tempo em que a mãe pode conhecer a si mesma ao tomar consciência das suas sombras. As sombras são os medos, pensamentos e crenças que carregamos conosco porém ficam guardados nos porões da mente (subconsciente). Elas afloram nesse período de sensibilidade e revelam muito a respeito do que somos no âmbito das emoções e dos pensamentos.

Entretanto, se você não conseguiu perceber, tomar consciência ou iluminar as suas sombras no período do pós-parto, isso não quer dizer que não vai mais ter a chance de se conhecer na maternidade.



A relação ente mãe e o filh@ é por toda vida, então, em qualquer etapa da sua vida você pode por meio da relação com seu filho conhecer mais de você mesma. Um filh@ é um espelho e reflete muito do que somos, o que se precisa é ter a sensibilidade para perceber e coragem para admitir isso.

Além disso, um filho faz a gente entrar em contato como nossa criança interior, a criança que outrora fomos e que foi ferida, reprimida, oprimida, limitada, incompreendida. Por exemplo, o choro do nosso filho pode causar incomodo e irritação porque é a nossa criança que não foi acolhida e compreendida. Outro exemplo, a exclusão que um filho pode sofrer em um brincar livre e inocente, dói na mãe porque, na verdade, é a criança que ela foi que sofreu exclusão.

Quando olhamos para isso, começa um processo de cura e libertação que nos aproxima da nossa essência. O filh@ nos faz ter contato com a nossa criança interior ferida, mas também nos mostra que já fomos a criança alegre, leve, divertida, amorosa que ele é. Ou seja, nos lembra da nossa natureza (essência) divina.

Na maternidade, é possível acessar nossas sombras assim como é possível acessar a nossa criança interior oprimida e ferida bem como a criança divina que carregamos dentro.



A maternidade, portanto, é um caminho que ajuda a se conhecer e se aperfeiçoar como pessoa (ego) e como humana. É um dos caminhos que conduz ao encontro de nós mesmas, ao descobrimento da nossa essência divina, mas esquecida com o passar do tempo.

Ela é um caminho, mas não o único. Cabe a cada uma de vocês encontrar o seu caminho de autodescoberta, cura e aperfeiçoamento de si para assim reconhecer quem de se é de verdade e viver uma vida mais leve, feliz e harmoniosa com os filhos.

Quando se começa a conhecer mais de nós mesmas, a descobrir quem de fato nós somos, iniciamos um caminho espiritual.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

O segredo por trás da filosofia autêntica

 


Quando se ouve falar em filosofia é comum vir à cabeça a ideia de que é algo difícil, abstrato e distante de nós. entende-se que ela é questionamento e pensamento (teorias ou ideias) construídas por pensadores sobre as coisas da vida/mundo ou sobre o que está além (metafísica). O que? Como? Por que? De onde? são as perguntas guias.

Sim, a filosofia é isso - teoria, mas ela não só isso. A maioria não sabe que a filosofia também possui uma dimensão prática. A parte prática da filosofia é um conhecimento que o pensador obtém pela experiência e sobre si mesmo e que interfere diretamente na sua maneira de fazer filosofia. Pode-se dizer que é o autoconhecimento do pensador o que faz a diferença na sua maneira de pensar e fazer filosofia.

A filosofia que se faz por aí, academicamente, em geral, se resume a uma teoria que não leva em conta a parte prática, quer dizer, é um pensamento crítico, reflexivo, argumentativo que acontece sem a prática do conhecimento de si. O autoconhecimento, no entanto, é parte essencial da filosofia em sua origem e, igualmente, da filosofia dos grandes pensadores da história.


Pitágoras, por exemplo, foi um sábio porque além de seu pensamento, cultiva a prática da disciplina e autocontrole e, igualmente, exercícios de controle mental. Não é à toa que Heráclito fala que um inteligência cultivada (intelectual) somada aos exercícios de vida prática conduz a inteligência divina. Não é em vão que Sêneca praticava exercícios espirituais e que Heidegger se retirava em sua cabana na floresta negra.

Então, a próxima vez que você ouvir falar em filosofia você vai lembrar que ela é muito mais do que teoria, ela também é uma atividade relacionada ao conhecimento do pensador em relação a si mesmo. A filosofia originária e autêntica possui, portanto, um âmbito prático (práticas sobre si mesmo) e o âmbito do pensar (o lado teórico-intelectual).